quarta-feira, 23 de maio de 2012

UMA REFLEXÃO SOBRE A CIDADE COMO LUGAR DE ESQUECIMENTO.

Ao mesmo tempo em que a cidade é considerada um lugar de memória, também podemos considerá-la um lugar de esquecimento. Muitas vezes sentimos que somos enganados pela memória: quase sempre nos pomos a pensar o que existia em determinado lugar, agora em reforma. Mas esse esquecimento não se limita ao que não existe mais, ele se manifesta em lugares abandonados por toda a cidade. 





Memorizar a cidade tem sido uma tarefa cada vez mais difícil, com as mudanças acontecendo em velocidade cada vez maior, é comum que pontos de referencia simplesmente desapareçam, física e mentalmente. O que dizer então dos lugares que não sejam referenciais tão coletivas? Um edifício no centro da cidade, onde provavelmente funcionara um órgão público ou morara uma figura de maior destaque, certamente recebe mais atenção, especialmente quando valorizada sua beleza e arquitetura. Mas para além deste pequeno núcleo, existem casas, pequenos comércios, galpões e praças que sucumbem à modernização, sem que isso seja sequer notado pela maioria da população.

A grande aliada do esquecimento é a velocidade: o ritmo acelerado da cidade contribui para que as mudanças não sejam percebidas. A velocidade em que circulam os meios de transporte (metrô, carro, ônibus) nem sempre permite uma observação mais aprofundada do caminho percorrido. Somada a isto, está a rotina apertada, regida por horários rigorosos, que faz com que, mesmo caminhando, o indivíduo não repare no ambiente a sua volta.

A velocidade também se faz presente nos canteiros de obra espalhados pela cidade. Os métodos vem se aprimorando a cada dia, garantindo uma conclusão em espaços de tempo cada vez menores, o que provoca mudanças drásticas no senário da cidade

O fato de a memória ser seletiva contribui muito com esse processo de esquecimento: lembramos dos lugares que nos marcaram mais profundamente, dos que mais frequentamos, dos que abrigavam instituições mais representativas. Da mesma forma, esquecemos lugares menos representativos ou que nos remetam a lembranças ruins.

O que escapa da modernização, não escapa, no entanto, do esquecimento. A memória não se limita ao edifício, apreendendo um contexto maior, onde interagem tradições, práticas e datas que dão sentido ao espaço. Muitas vezes a falta desse contexto relega um lugar ao esquecimento. Mesmo que não seja substituído por um novo edifício, o antigo cai em decadência. Por não representar o que antes representava, mas também por não corresponder aos novos parâmetros, ele é abandonado. São muitos os edifícios que encontramos nessa situação.

O sentimento de pertencimento, responsável pela identificação do morador com os espaços da cidade, devido às mudanças, mas talvez também ao grande número de migrantes e imigrantes, é modificado. Em artigo publicado na Arquitetura Revista, os autores Ethel Pinheiro e Cristiane Duarte tratam dessa modificação no modo de sentir a cidade

Mas para o homem contemporâneo, maquinado pelas primeiras descobertas modernistas, por sua gradual mudança na posição dentro do espaço “habitável” e pela impressão da velocidade no cotidiano (aumento da automação, da industrialização, da produção em série e da divulgação em massa de informações instantâneas), a identificação tornou-se um termo indiferente, cercado de diversas outras condicionantes tão ou mais importantes que o próprio sentido de pertencimento. Pertencer já não é mais uma obrigação latente para a absorção dos espaços (PINEIRO; DUARTE, 2008: 4).

Para os autores, a globalização contribui com esse processo na medida em que cria padrões passiveis de aceitação em diversos contextos. Assim, um edifício não é planejado de acordo com características locais, não por se negar a criar lugares que sejam significativos, mas por ignorar o espaço em que ele será inserido.

As formas de representação (música, fotografia, literatura, pintura) funcionam como uma tentativa de manter vivo o que cai no esquecimento. As músicas de Adoniran Barbosa, são exemplos claros dessa tentativa. Quando ele canta uma cidade que está mudando, desaparecendo, percebemos que existe a necessidade de se conservar os lugares de memória, muitas vezes coletivos, que marcaram suas andanças pela cidade.

Podemos concluir que o esquecimento não se limita ao que deixou de existir, ao que foi substituído, mas também ao que deixou de significar e representar algo. A rotina da cidade, suas novas necessidades e parâmetros, provocam não apenas a sobreposição física, mas também a mental.



Referência:

PINHEIRO, E.; DUARTE, C. Esquecimento e reconstrução: memória e experiência na

arquitetura da cidade. In: ArquiteturaRevista, v. 4, n. 1, janeiro-junho. 2008. Disponível em: <http://www.arquiteturarevista.unisinos.br/pdf/44.pdf>. Acesso em: 15 nov. 2011.

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