quarta-feira, 23 de maio de 2012

O BLOCO DA LAMA: uma proposta de inscrição

RESUMO:

O presente artigo se dispõe a apresentar o Bloco da Lama da cidade de Paraty como uma manifestação que possui características que possibilitam sua inserção no Livro de Registro das Celebrações. Ele traz um brave histórico do patrimônio cultural imaterial no Brasil e da manifestação em questão, bem como a discussão entorno da inscrição do bloco como Bem Cultural Imaterial.

É importante considerar que a proposta do artigo não abrange todas as determinações do IPHAN para o registro de um patrimônio imaterial.

Introdução:

Não é de se esperar que em um lugar de tradições seculares, onde a história se faz quase que absoluta, uma celebração tão recente tenha se tornado tradicional. Esse é o caso do Bloco da Lama da cidade de Paraty.

Com apenas dezesseis anos de existência, o bloco leva moradores e turistas a se lançarem em um verdadeiro mar de lama da Praia do Jabaquara, na tarde do sábado de carnaval.

Na busca por caranguejos, no mangue ao final da praia, dois amigos se deram conta do efeito causado pela lama em seus corpos, um aspecto rustico e monstruoso. Foi então que nasceu a ideia de reunir alguns amigos para brincar o carnaval. No ano seguinte, o bloco já atraía muitos novos adeptos. Hoje ele é um dos maiores atrativos da cidade, sendo responsável por reunir centenas de visitantes e moradores enlameados, todos os anos.

O presente artigo tem por objetivo apresentar o Bloco da Lama como um possível patrimônio cultural imaterial, trazendo as características que o faz referencial da identidade do grupo em que se desenvolve.

A discussão que está intrinsecamente colocada à proposta diz respeito ao que define uma prática, ritual ou expressão como integrante da identidade de um grupo. Será o ato de literalmente transmitir algo, de ser praticado espontaneamente, de despertar um sentimento de pertencimento, ou seria o tempo durante o qual foi realizado?

Buscamos demonstrar que o patrimônio cultural imaterial não depende exclusivamente do conceito amplamente aceito de tradição, para tanto, identificamos as características que fazem do Bloco da Lama um representante da cultura caiçara de Paraty.

Em um primeiro momento será feita uma apresentação da cidade onde se desenvolveu o bloco, depois passamos a um breve histórico do bloco, onde também serão colocadas as características que o diferencia de qualquer outro bloco carnavalesco conhecido no Brasil. Passamos então a uma breve história do patrimônio cultural imaterial na país, momento em que será estabelecida e discussão acerca da inscrição do Bloco da Lama como um Bem Cultural Imaterial. Para concluir, teceremos nossas considerações finais.

 
 


A cidade:

Localizada no litoral fluminense, extremo sul do Estado do Rio de Janeiro, a cidade de Paraty é tombada como Patrimônio Estadual (1945), Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (1958) e Monumento Nacional (1966). Fundada oficialmente em 1667, ela conserva o calçamento, as igrejas e casarões do período colonial. Além dos edifícios históricos, Paraty também possui grande beleza natural, como praias, cachoeiras, ilhas e boa parte da Mata Atlântica preservada. Essas características fizeram do turismo uma das principais atividades econômicas da cidade.

A vila que viveu o auge do ouro e do café, passou por um longo período de isolamento em relação ao resto do país, após a queda da produção deste último. No entanto, com a abertura da BR 101 (Rodovia Rio-Santos), a cidade voltou definitivamente ao contexto nacional.

As perspectivas do turismo provocaram mudanças na cidade, que havia se concentrado, por décadas, na agricultura, em suas antigas tradições e na cultura caiçara. A construção civil foi impulsionada, o comércio ampliado, o centro histórico cercado, proibindo assim a entrada de automóveis em suas ruas de “Pé de Moleque”. Por outro lado, esse crescimento trouxe problemas para o meio ambiente e para a população, graças ao conflito entre a exploração da região e a cultura local.

Com a chegada de novos investimentos, a população local se viu relegada às regiões mais afastadas do centro, tendo inclusive que mudar o ramo de suas atividades econômicas, passando a se dedicar, em sua grande maioria, à produção de artesanatos. Esse processo de reaproximação trouxe para a cidade os conceitos de modernização difundidos no restante do país, terminando por sufocar a cultura caiçara.

Segundo Priscyla Torrentes (2007, p: 95), “O fato de Paraty ter ficado isolado geográfica e economicamente do resto do país no período de 1870 a 1950 fez com que se preservassem alguns antigos costumes, em especial as comemorações das grandes datas do catolicismo”.

Hoje, a cidade é conhecida, além de seus atributos históricos e naturais, por sua produção artística e cultural. Alguns eventos e celebrações levam à cidade turistas durante todo o ano, como o carnaval, a Semana Santa, o Festival da Pinga e a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty).

O carnaval é uma das festas mais importantes do calendário da cidade, além de tradicional, atrai grande número de visitantes. Durante os dias de folia, as bandas musicais tradicionais desfilam pela cidade e os mascaradinhos, crianças e jovens que usando máscaras e roupas vermelhas, saem às ruas entre o Dia de Reis e o carnaval, afastando os maus espíritos para que a festa aconteça pacificamente. O Boronofe, boneco gigante inspirado no cientista Voronoff, que no começo do século XX causou polêmica ao fazer transplantes de sexo em animais, também faz parte do tradicional carnava paratiense.

As máscaras são uma antiga tradição da festa, costume trazido por africanos e europeus, que as utilizavam em rituais religiosos e festividades. A técnica consiste na colagem de papeis sobrepostos sobre uma base moldada com barro.

Apesar de ser incomparavelmente mais novo, o Bloco da Lama entrou para o quadro de tradições da festa, tornando-se um atrativo para o turismo, mas principalmente uma forma de expressão e interação da população local.



O Bloco:

Há dois quilômetros do centro fica a Praia do Jabaquara, que recebe o mesmo nome do bairro que a abriga. De águas muito calmas, a praia é um local próprio para os banhistas e pescadores de crustáceos, mariscos e camarões. Ao final da praia encontra-se o mangue de onde a lama é proveniente, considerada medicinal por possuir em sua composição grande quantidade de enxofre e iodo. Lá também pode ser encontrada a Toca do Cassununga, sítio arqueológico onde foram encontradas ossadas de índios pré-históricos, além de mobiliário funerário e utensílios de pedra e restos de animais.

A necessidade de se cobrirem de lama surgiu como forma de escapar da picada dos inúmeros insetos que habitam a região do mangue. Depois de perceberem que estavam irreconhecíveis, os amigos Lúcio e Nilton sentiram a tentação de voltar para a cidade assustando os moradores com aquela aparência exótica. Para melhorar o disfarce, decidiram usar elementos naturais para compor a fantasia. No entanto, pensaram que a bagunça seria melhor com a participação de mais amigos. Foi assim que o bloco, com aproximadamente dez integrantes, saiu pelas ruas da cidade pela primeira vez, em 1986.

No sábado de carnaval, no final da tarde, centenas de pessoas se reúnem na Praia do Jabaquara para se cobriram de lama. Lançados à lama, os integrantes se auxiliam na hora de cobrirem seus corpos, fazendo desta primeira etapa um grande momento de interação. Além da lama os integrantes também usam elementos encontrados pela praia, como plantas, ossos, pedaços de pau, o que melhor os agradar para a composição.

Com os foliões enlameados, chega a hora do bloco sair. Tomando a avenida principal do bairro, o bloco segue em direção à praia do Pontal, a mais próxima do centro histórico, onde a brincadeira termina com os corpos lavados pelas águas do mar.

Durante o caminho, alguns elementos caracterizam o bloco:

    Os integrantes andam pelas ruas com seus corpos encurvados, parecendo ameaçar as pessoas por quem passam, gritando “uga, uga, há, há”, fingindo ser seres pré-históricos.

    Acontecem encenações de lutas e brigas entre os integrantes de forma natural. O bloco faz algumas paradas em pontos da cidade onde essas evoluções se desenvolvam.

    Há uma trilha sonora que mistura diversas vertentes da música, preparada previamente para ambientar e animar o bloco.

    Bob Lama é o boneco que divulga o bloco. Confeccionado a partir da reutilização de um manequim de fibra e trajado como um integrante do bloco, ele é levado às agências de turismo da cidade dias antes da saída do bloco.

    A Tartaruga de Galápagos, escolhida por ser um animal pré-histórico ainda existente, confeccionada com a técnica de papelagem, acompanha o bloco.

    Também a partir da papelagem são confeccionadas as máscaras imitando caveiras de bois utilizadas por alguns integrantes.

    O andor é confeccionado todos os anos, sua função é a de manter o grupo unido. Durante o trajeto, o grupo faz revêrencia a ele, agachando e levantando, esticando os braços.

    O bloco também tem um orador oficial, que com sons estranhos, repetidos em coro pelo grupo, parece se comunicar em uma língua primitiva.

    A Toca da Lama é o lugar onde o bloco se organiza antes da saída, ela é confeccionada a partir de materiais naturais e reciclados.

Em seu trabalho, Marisa Sasso Papa se dedica a demonstrar que o Bloco da Lama pode ser inserido no contexto dos folguetos, festas populares caracterizadas principalmente pela dança, música e encenações teatrais, exemplos dessas festas são: Bumba-meu-boi, Congada e a Folia-de-reis. Para a autora, o bloco possui todos o elementos que caracterizam o folgueto. Segundo ela (1991), “O Bloco da Lama já pode ser considerado um folgueto, uma forma de teatro popular, porque tem função, nasceu de forma espontânea e conquistou a aceitação coletiva, além de se absolutamente dinâmico”.

O bloco tem grande variedade de público, entre turistas e moradores encontram-se também pessoas de todas as idades, além de cachorros e até cavalos. Alguns desses foliões afirmam que uma atmosfera mística envolve o bloco, como se algo mágico fosse responsável pelo clima de alegria que envolve o grupo.

O fato é que, em poucos anos, o Bloco da Lama se consolidou como uma das mais populares tradições do carnaval de Paraty.



A Relação com a Comunidade:

Formado por cidadãos paratienses, professores, em sua maioria, o bloco está intimamente ligado às tradições e necessidades da comunidade e da cidade. A partir disso, o grupo desenvolve projetos junto à comunidade durante todo o ano.

A primeira manifestação desse objetivo se deu no mesmo ano em que se iniciou o bloco. Para protestarem contra a Usina Nuclear de Angra 2, alguns integrantes se cobriram de lama, representando sobrevivente de Chernobyl (1986).

Há quatro anos os organizadores do bloco vem percorrendo escolas públicas e particulares da cidade, ministrando palestras e organizando exposições. Os temas abordados dizem respeito ao cotidiano da população local, como as tradições e costumes, principalmente do carnaval, a preservação dos mangues e o desenvolvimento sustentável. Durante as palestras, os alunos também são incentivados a criarem novos blocos, a pensarem neles, por quê não, como uma fonte de renda e possibilidade de turismo, também sustentável.



Um Patrimônio Imaterial:

A preocupação com a identidade nacional e com as tradições que a compõe teve início com o Movimento Modernista da década de 1920, fortemente expressada na Semana de 22. No entanto, muitas décadas se passaram até que o patrimônio imaterial se consolidasse como um Bem Cultural Nacional.

A criação do SIPHAN, hoje IPHAN, em 1937 deu início ao processo de desenvolvimento da legislação referente ao patrimônio nacional. Apesar do artigo 216 da Constituição de 1988 trazer os bens de natureza material e imaterial como constituintes do patrimônio cultural brasileiro, só a partir do ano de 2000, com o Decreto nº 3.551, começaram a ser efetivadas as políticas para inventariar, registrar e salvaguardar os patrimônios imateriais nacionais.

Apesar de incipiente, o patrimônio cultural imaterial tem tido grandes conquistas durante esses últimos anos, sendo garantido a ele a pesquisa e arquivamento de seus dados e planos para que se desenvolva de forma sustentável, possibilitando sua continuidade e o desenvolvimento de economia local.

Baseado no artigo 2° da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO (2003), o conceito de patrimônio cultural imaterial adotado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) compreende: as formas de expressão e representação, os lugares onde se desenvolvem e até objetos utilizados durante sua execução, as técnicas ou formas de fazer, os instrumentos e artefatos, que fazem parte dos diferentes grupos sociais, que as reconhecem como formadoras de sua identidade. Essa definição também foi adotada nas esferas estadual e municipal.

Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcante e Maria Cecilia Londres Fonseca (2008, p: 20) ressaltam que “O conceito de patrimônio cultural imaterial é, portanto, amplo, dotado de forte viés antropológico, e abarca potencialmente expressões de todos os grupos e camadas sociais”.

No entanto, apenas um aparato de leis não faz de uma manifestação um patrimônio cultural imaterial, para isso é preciso também que haja a identificação de uma comunidade, grupo ou individuo com ela, pois a questão fundamental no patrimônio é o sentimento de pertencimento, questão também abordada por Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcante e Maria Cecilia Londres Fonseca:

Um critério-chave para a legitimidade de qualquer pleito ao registro é a sua relevância para a memória, a identidade e a formação da sociedade brasileira. A continuidade histórica dos bens culturais, sua ligação com o passado e sua reiteração, transformação e atualização permanentes tornam-nos referências culturais para as comunidades que os mantêm e os vivenciam. A referência cultural é um conceito-chave na formulação e na prática da política brasileira de salvaguarda (2008).

O Bloco da Lama, apesar de não ser tradicional, no sentido mais amplo, o é no sentido etimológico, a medida em que assume o papel de transmitir algo. A tradição também se manifesta na própria formatação (em bloco), tão tradicional no carnaval brasileiro, hoje muito menos comum. A presença das máscaras, assim como a forma como são produzidas também fazem a ponte presente-passado, mantendo ativa uma das formas mais antigas de se produzir artesanato em Paraty.

Sufocadas pelo que veio de fora, as práticas culturais, tão tradicionais na cidade, foram perdendo seu lugar. Nesse sentido, o bloco representa uma retomada da cultura caiçara, uma manifestação com a qual a população local, em grande número, se identificou, não só pela ideologia que o envolve, mas também por incorporar práticas mais tradicionais.

O Bloco da Lama é uma genuína criação paratiense, coisa rara na cidade nos dias de hoje. Ele se consolidou, mesmo com o forte apelo turístico, como uma manifestação impulsionada pela vontade de um grupo de moradores de Paraty.

O bloco hoje é parte fundamental do carnaval da cidade, ele é reconhecido como formador ou representante da identidade da comunidade caiçara, provoca o sentimento de pertencimento em seu integrantes, até mesmo para os que apenas o divulgam para o turismo, que o reconhecem como parte integrante da cultura paratiense. Sendo assim, ele reúne um conjunto de características que o credencia a pleitear um lugar no Livro de Registro das Celebrações, onde são inscritos as festas e rituais que fazem parte da vivência social.



Considerações Finais:

Podemos concluir que o Bloco da Lama é mais do que um bloco carnavalesco que desfila pelas ruas de Paraty, ele envolve a preocupação com o meio ambiente, a educação, o turismo e a economia local, as tradições caiçara, a expressão de toda uma cultura. Ele expressa a vontade de seus integrantes de que o bloco desfile todos os anos.

Esse desfile, por sua vez, nos mostra um grupo que viu sua cultura relegada a um espaço cada vez menor, de tradições e costumes subordinados às novas tendências que vinham de fora.

Apesar existir há pouco tempo, se comparado a celebrações mais tradicionais do Brasil, o Bloco da Lama se consolidou como integrante da identidade do grupo no qual é praticado, e até mesmo fora dele. Sem dúvida, isso tem grande valor, valor que merece ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial.



Bibliografia:

BRASIL. Constituição (1988): Artigo 216. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm> Acesso em: 15 de set. 2011.

BRASIL. Decreto nº 3.551 , de 4 de agosto de 2000. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D3551.htm>. Acesso em: 15 set. 2011.

CASTRO, Maria Laura Viveiros de; FONSECA, Maria Cecília Londres. Patrimônio imaterial no Brasil. Brasília: UNESCO, Educarte, 2008.

http://www.blocodalama.com.br/

http://dicionarioetimologico.com.br

http://www.paraty.tur.br/

Instituto Patrimônio Histórico Nacional/Departamento de Patrimônio Imaterial. Os Sambas, as Rodas, os Bumbas, os Meus e os Bois: a trajetória da salvaguarda do patrimônio cultural imaterial no Brasil, 1936/2006. Brasília, 2006.

PAPA, Maria Sasso. O Bloco da Lama – Paraty – Sul do Rio de Janeiro. São Paulo: Escola de Comunicações e Artes da USP, 1991.

TORRENTES, Priscyla Arias. A atividade turística e a preservação do patrimônio histórico e cultural na Estrada Real Paraty - Cunha. Rio de Janeiro: UFRJ/FAU/PROARQ, 2007.

UNESCO. Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Paris: UNESCO, 2003. Disponível em: <http://www.unesco.pt/cgi-bin/cultura/docs/cul_doc.php?idd=16>. Acesso em: 28 de Set. 2011.

VENEGAS, Hernán. Patrimônio cultural e turismo no Brasil em perspectiva histórica:

encontros e desencontros na cidade de Paraty. Niterói: Universidade Federal Fluminense, ICHF – Departamento de História, 2011.

 

2 comentários:

  1. Ficou legal o novo formato do blog, tem um monte de coisa interessante. Ainda não li, mas depois que ler com calma, vou postando comentarios uns comentarios.

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