quarta-feira, 23 de maio de 2012

MÚSICA OU RUÍDO: a inversão de papéis na sociedade pós-moderna.

 
 
Introdução:

O presente artigo se dispõe a fazer uma breve análise da paisagem sonora da sociedade pós-moderna, relacionando as mudanças nos conceitos de música e ruído e nas posições ocupadas por esses elementos na paisagem sonora ao avanço da tecnologia.
Em um primeiro momento, apresentaremos o conceito de paisagem sonora segundo seu criador, detalhando seus temas principais. Em seguida contextualizaremos historicamente o que identificamos como mudanças, analisando as possibilidades e inversões de papéis criadas a partir do avanço da tecnologia, bem como os reflexos desse processo na paisagem sonora das grandes cidades. Por fim teceremos nossas considerações finais.


Música ou Ruído:

Antes de nos debruçarmos sobre o tema em si,  faz-se  necessária uma definição, mesmo que breve, do conceito de paisagem sonora, cunhado por Schaefer. Segundo ele “A paisagem sonora é qualquer campo de estudo acústico”. Consideremos então que isso corresponda ao som total que chega a nossos ouvidos, seja em uma praça, uma música ou um programa de rádio. Neste caso, trataremos da paisagem de uma cidade pós-moderna.

Temos como temas principais da paisagem sonora os sons fundamentais, os sinais e as marcas sonoras. Tomemos por som fundamental aquele som que, como na música, da base à composição, e mesmo que nem sempre seja ouvido conscientemente, é em torno dele que todo, o mais, ganha significado. Na paisagem sonora, ele funciona como o fundo. Esse som pode nos dizer muito sobre o contexto no qual está inserido, e muitas vezes ele está tão arraigado que sua ausência poderia refletir no comportamento da sociedade.

Na paisagem sonora, os sinais se enquadram mais como figura, que por se destacarem, são ouvidos conscientemente. No contexto de uma sociedade, eles correspondem aos sons que têm função de nos alertar, como uma sirene, ou uma campainha.

Marca sonora corresponde a “um som da comunidade que seja único ou que possua determinadas qualidades que o tornem especialmente significativo ou notado pelo povo daquele lugar”. Sendo assim, ela confere identidade à paisagem sonora.

Em um passado remoto, a audição era fundamental para a sobrevivência do homem. Na natureza, no escuro, ele se utilizava dela para detectar qualquer sinal de alteração no ambiente a sua volta, para identificar qualquer ameaça. No entanto, com o passar dos séculos, a visão passou à posição de sentido privilegiado para a captação de informações. Podemos considerar que essa mudança se deve, de uma parte, ao desenvolvimento da linguagem escrita, e de outra, ao Renascimento, na medida em que se passou a analisar as formas mais adequadas para se adquirir conhecimento.

Em consequência dessa mudança, as pessoas passaram a se preocupar cada vez menos com a audição e, principalmente, com o que se ouve.        

A partir da Revolução Industrial, novos sons passaram a integrar a paisagem sonora das cidades, não apenas através dos sons das máquinas nas fábricas, mas também pelo grande contingente de pessoas que deixaram o campo em busca de trabalho. Com o avanço da tecnologia, a variedade de sons foi se multiplicando e sintetizando, e a paisagem sonora foi definitivamente tomada por essas novas formas.

Ao longo do século XX, os largos espaços de silêncio preenchidos por sons da natureza foram dando espaço aos ruídos da industrialização, alterando de forma dramática o modo como o homem se relacionava com aquela paisagem.

A inversão na relação ruído/fundo ensinou o homem a ignorar os ruídos que lhe incomodavam, mas isso não significa que ele tenha se tornado totalmente imune a eles. Muitos estudos têm relacionado esse processo ao aumento do estresse e ao desgaste físico e emocional dos moradores de grandes cidades, expostos a essa paisagem “hostil”.

Por outro lado, a paisagem sonora pode nos revelar muito sobre essas sociedades, seus rituais, as formas das pessoas se relacionarem, os sons de alerta, e acompanhando as mudanças na paisagem, podemos identificar as permanências e rupturas das práticas que compõem a vida urbana. 

É interessante ver que conforme a paisagem foi se transformando, a forma como o som é interpretado também se modificou. Segundo Rafael Sarpa

“O ponto central no cerne destas transformações sonoras foi a troca de ênfase nos parâmetros possíveis de utilização musical. A conseqüência que melhor sintetiza este acúmulo foi a emergência do par som/silêncio como parâmetro mais geral possível, confundindo e borrando as fronteiras definidas pelo par anterior música/não-música, ou talvez música/ruído.”

A partir dessa mudança, a música, que até o início do século XX, se concentrava nas salas de concerto, ultrapassa a barreira dos instrumentos tradicionais e passa a incorporar elementos diversos. Nesse sentido, o avanço da tecnologia foi determinante para que a música assumisse outras formas. À medida que surgia a possibilidade de capturar, registrara e de reproduzir facilmente esses novos elementos, a música começa a alcançar proporções jamais vistas, no que diz respeito não só  à criação, mas também à circulação..

Ainda segundo Sarpa, em sua pesquisa sobre o noise (gênero musical derivado do movimento industrial),

“Muitas destas práticas representadas pelas vanguardas musicais procuraram andar tangenciando e ultrapassando esses limites, retroalimentando as inovações tecnológicas ao se apropriar delas, fabricando linguagens específicas que explorem e enfatizem características específicas de tais materialidades. Nisto, assistimos nos pré, pós-guerras e além, uma série de ocorrências deste processo, a citar algumas delas: a exacerbação da velocidade e intensidade, e riqueza de ruídos do novo maquinário como na música futurista; os primeiros limites da gravação e manipulação do gravado como na música concreta; a geração eletrônica de som e exclusiva utilização disto como material musical como na música eletrônica(...)”

A presença desses elementos no que passa a ser produzido nos revela o lugar que a tecnologia passa a ocupar na vida das pessoas, os sons do trabalho e do cotidiano passam a representar mais do que o incômodo, ganhando status de arte. Ao mesmo tempo, o ruído de antes passa a fazer parte da paisagem sonora das grandes cidades, de tal forma que, ao contrário de se destacarem, como na música, tornam-se  permanentes, o fundo dessa paisagem pós-moderna.

Da mesma forma, vemos outra inversão de posições, e é a vez da música se tornar ruído. Esse é o caso de algo que se tornou presença obrigatória em nossa sociedade, o celular. A possibilidade de criar e reproduzir sons, através de um aparelho extremamente fácil de ser portado, levou a música a lugares antes inimagináveis, e com ela todos os sons produzidos pelo aparelho. O que temos hoje é um ambiente onde uma variedade de músicas, dentre outros ruídos, são reproduzidos ao mesmo tempo em pequenos espaços, como o vagão de um trem ou um ônibus, criando uma atmosfera de conflito. Assim, a música se tornou um dos sons que tentamos ignorar.

Considerações finais:

Consideramos por fim que um som não pode ser pré-classificado como música ou ruído, e que define a forma como será interpretado dependerá da intenção de quem o produz. Os sons produzidos pelo maquinário da fábrica, pelas pessoas em um mercado e até o som de uma torcida de futebol, com o auxilio da tecnologia, passaram de ruído à música, da mesma forma, também graças à tecnologia, a música  transformou-se em ruído.   

Em uma sociedade com a paisagem sonora dominada por buzinas, rádios, celulares, máquinas, nos vemos sufocados pela tecnologia. Mas qual seria então a saída? Se uma paisagem sonora agradável representa também um bem estar social, e se a partir dela podemos analisar a sociedade, fica claro que o caos que ouvimos corresponde ao caos pelo qual passa nossa sociedade.

Ainda segundo Schaefer, “Em uma sociedade verdadeiramente democrática, a paisagem sonora será planejada por aqueles que nela vivem, e não por forças imperialistas vindas de fora”. E talvez essa seja a resposta mais adequada à nossa pergunta.

A conclusão que chegamos a respeito de nossa paisagem sonora aponta para a necessidade de se pensar mais a fundo em uma organização, um planejamento do que ouvimos. A própria sociedade preocupar-se  e assumir para si o planejamento da paisagem sonora, selecionando o que agrada ou não a seus integrantes, corresponderia à representatividade, autonomia e ao poder que ela terá sobre si mesma.




Bibliografia:

FORTUNA, Carlos. Imagens da cidade: sobre a heurística da paisagem sonora.e os ambientes sociais urbanos. Oficina do CES, Coimbra. 1998.

SARPA, Rafael;Transformações Sonoras Extremas. Contemporânea, edição especial, Rio de Janeiro, vol 6, n. 03, 2008. Disponível em: www.contemporanea.uerj.br/.../08_RafaelSARPA_IISeminarioPPGCOM Acesso em: 01 mai. 2012.

SCHAEFER, R. Murray. A Afinação do Mundo. São Paulo: UNESP, 2001.

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