sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Dicionário de música popular brasileira

Achei uma coisa bacana hoje na internet. Enquanto fazia um trabalho, topei com um dicionário diferente, mas que parece bem legal. O dicionário de música popular brasileira está no site do Instituto Cravo Albin em http://institutocravoalbin.com.br/publicacoes-do-icca/dicionario-cravo-albin/


(link direto do dicionário: http://www.dicionariompb.com.br/busca/index/M).Parece que tem mais coisa legal no site.


Não deu tempo ainda de ler sobre o instituto, então não sei direito o que é. Vi que é uma sociedade civil que tem por objetivo fomentar a pesquisa e preservação da música popular brasileira, normalmente desvalorizada.



Entra lá pra dar uma fuçada também!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O homem que confundiu sua mulher com um chapéu


Oliver Sacks é um neurologista inglês nascido em 1933. Depois de formado em medicina pela Universidade de Oxford, mudou-se para os Estados Unidos, onde teve início sua carreira de escritor.
Em 1966, Sacks começa a trabalhar como neurologista no Hospital Berth Abraham, Nova Iorque, onde escreve seu primeiro livro "Awakenings", posteriormente adaptado ao cinema com o nome de “Tempo de Despertar”, quase uma autobiografia. Daí em diante, passou a ser um escritor aclamado, não só por este, como por muitos outros livros que escreveu.


Resumo do Livro: O homem que confundiu sua mulher com um chapéu

Para apresentar seu livro, Sacks começa falando de Hipócrates, o ”historiador médico”, autor de interessantes relatos de doenças como, possivelmente, a tuberculose, malária e pneumonia, na antiga Grécia. Com esse livro, conforme afirma seu autor, pretendia-se renovar a forma como a doença é retratada, de Hipócrates aos relatos modernos. Historicamente, exceto um breve período do século XIX, os casos foram estudados por uma abordagem quantitativa, criando uma história de cada patologia. Mas quem são esses doentes? Como a doença entrou em suas vidas? Como eles se relacionam com ela?
Oliver Sacks se propõe a relatar os casos em forma de histórias narradas, dando a elas “o quem” e não “o que”. Ele coloca o doente como personagem principal, independente da patologia que o acomete.
O livro, publicado em 1985, traz algumas histórias de pessoas atendidas pelo neurologista, autorizadas pelos pacientes, oficializando a tradição de o paciente contar sua história ao médico. Os casos trazem distúrbios atribuídos a lesões no lado direito do cérebro, até então pouco estudados pelos neurologistas.

As lesões causadas no hemisfério esquerdo do cérebro afetam os movimentos, o físico, mas as causadas no hemisfério direito guardavam um mistério, o eu, e por isso ficavam em segundo plano nas pesquisas. Alguns casos relatados no livro nos fazem questionar nossas percepções, nossa personalidade, nossa noção de nós mesmo, mostrando que o cérebro é capaz de criar realidades, tanto quanto de se adaptar a elas.
O primeiro caso relatado é o do dr. P, “o homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, que passou a não reconhecer os rostos e a ver rostos onde não existiam. Professor de música de uma universidade local, lugar onde começaram a surgir os sintomas, Dr. P trabalhava normalmente, sem notar qualquer problema. Ele passou a reconhecer seus alunos pela voz ou jeito de tocar, passando por situações bem embaraçosas, como a de passar a mão em um hidrante, pensando ser a cabeça de uma criança. Mas, passados três anos, acometido pela diabetes, ele começou a achar que estava enxergando mal. Após realizar muitos exames, o oftalmologista lhe disse que sua visão era perfeita, que talvez o problema fosse neurológico. Foi então que ele chegou ao Dr. Sacks.
O médico nunca havia se deparado com tal fenômeno. O homem o olhava, mas sem ver seu rosto, buscava cada parte, nariz, olhos, orelhas, mas não o todo. Após uma conversa e alguns exames, o médico lhe pede que calce novamente o sapato, e sai da sala. Quando volta, Dr. P ainda está com o pé descalço, então ele lhe pergunta se quer ajuda para calçá-lo, e Dr. P se assusta, pensando que já estava com o sapato no pé. O médico também se assusta ao ver que o homem confundia o pé com o sapato e o sapato com o pé. Mas o susto foi ainda maior quando, ao sair do consultório, o homem puxou a cabeça da esposa pensando ser seu chapéu.
O médico foi a casa de Dr. P para jantar e continuar seu diagnóstico. Lá, ele viu muitas fotos na parede, música por toda parte, coisas que usou em sua investigação. Ele percebeu que o homem não reconhecia seus parentes em fotografias, a menos que encontrasse uma característica marcante que o diferenciasse das outras pessoas. Durante o jantar, o médico observou que Dr. P cantarolava alegremente, mas que travava, como se tudo a sua frente tivesse desaparecido, diante de qualquer interrupção, como o toque da campainha. Mais tarde, conversando com a Sra. P, descobriu que ele cantarolava o dia todo, era uma música para cada ação, e assim conseguia realizá-las.
Sacks percebeu que o homem havia substituído gradativamente as representações visuais de realidade pela música, que agora regia sua vida e suas ações. Quando o paciente lhe pergunta o que pode fazer, sem saída para a troca, ele lhe recomenda que continue vivendo de música, sua nova visão.
Outro caso interessante é o do “Marinheiro Perdido”, um homem com mais de 90 anos que vivia no hospital. Operador de rádio em submarinos durante a Segunda Guerra, Jimmie dizia ter 19 anos, e sua memória parava aí. Ele lembrava de tudo que aconteceu até essa época, mas tinha perda de memória recente, o que fazia com que tudo o que se passasse depois ficasse gravado por apenas alguns segundos.
Ele sofria da síndrome de Korsakov, talvez causada pelo uso excessivo de álcool. Mas o que fazer com Jim? Ele era um homem sem raízes, sem conexões. Se não havia cura para sua memória, haveria uma solução para sua vida? Eis que vemos que o homem é constituído por outras ligações, e Jimmie se encontra na missa e na jardinagem, o que o mantem em um presente que não é só dele.
Sem dúvida, o caso mais perturbador é o de Christina, uma mulher que perdeu a propriacepção, o sentido de nós mesmos, de propriedade sobre nosso corpo.
Ela era uma moça comum, que faria uma cirurgia comum. No entanto, antes disso acontecer, ela perdeu a coisa mais genuína e elementar de todas, uma coisa na qual sequer pensamos de tão simples que parece, o domínio sobre ela mesma, sobre seu corpo. Ela se dizia desencarnada.
Depois de muito tempo e de muitos exames, a moça passou a substituir a propriacepção pela visão para realizar suas ações, era como uma segunda natureza. Ela tinha que olhar para tudo o que fazia, olhar para os braços para mexê-los, para as pernas para andar, e caso fechasse os olhos, ela caia. Depois de cerca de um ano, Christina pode ir para casa. Ela havia melhorado muito, mas ainda se sentia desencarnada. Sua doença não era socialmente conhecida, nem visível, o que lhe causava muito sofrimento. Ela havia perdido sua identidade corporal, seu ego corporal.

terça-feira, 9 de março de 2010

Em Busca da Beleza

Fernando Pessoa




I

Soam vãos, dolorido epicurista,
Os versos teus, que a minha dor despreza;
Já tive a alma sem descrença presa
Desse teu sonho, que perturba a vista.

Da Perfeição segui em vã conquista,
Mas vi depressa, já sem a alma acesa,
Que a própria idéia em nós dessa beleza
Um infinito de nós mesmos dista.

Nem à nossa alma definir podemos
A Perfeição em cuja estrada a vida,
Achando-a intérmina, a chorar perdemos.

O mar tem fim, o céu talvez o tenha,
Mas não a ânsia da Cousa indefinida
Que o ser indefinida faz tamanha.

II

Nem defini-la, nem achá-la, a ela –
A Beleza. No mundo não existe.
Ai de quem coma alma inda mais triste
Nos seres transitórios quer colhê-la!

Acanhe-se a alma porque não conquiste
Mais que o banal de cada cousa bela,
Ou saiba que ao ardor de querer havê-la –
À Perfeição – só a desgraça assiste.

Só quem da vida bebeu todo o vinho,
Dum trago ou não, mas sendo até o fundo,
Sabe (mas sem remédio) o bom caminho;

Conhece o tédio extremo da desgraça
Que olha estupidamente o nauseabundo
Cristal inútil da vazia taça.


III

Só que puder obter a estupidez
Ou a loucura pode ser feliz.
Buscar, querer, amar . . . tudo isto diz
Perder, chorar, sofrer, vez após vez.

A estupidez achou sempre o que quis
Do círculo banal da sua avidez;
Nunca aos loucos o engano se desfez
Com quem um falso mundo seu condiz.

Há dois males: verdade e aspiração,
E há uma forma só de os saber males:
É conhecê-los bem, saber que são

Um o horror real, o outro o vazio –
Horror não menos – dois como que vales
Duma montanha que ninguém subiu.


IV

Leva-me longe, meu suspiro fundo,
Além do que deseja e que começa,
Lá muito longe, onde o viver se esqueça
Das formas metafísicas do mundo.

Aí que o meu sentir vago e profundo
O seu lugar exterior conheça,
Aí durma em fim, aí enfim faleça
O cintilar do espírito fecundo.

Aí . . . mas de que serve imaginar
Regiões onde o sonho é verdadeiro
Ou terras para o ser atormentar?

É elevar demais a aspiração,
E, falhando esse sonho derradeiro,
Encontrar mais vazio o coração.


V

Braços cruzados, sem pensar nem crer,
Fiquemos pois sem mágoas nem desejos.
Deixemos beijos, pois o que são beijos?
A vida é só o esperar morrer.

Longe da dor e longe do prazer,
Conheçamos no sono os benfazejos
Poderes únicos; sem urzes, brejos,
A sua estrada sabe apetecer.

C’roado de papoilas e trazendo
Artes porque com sono tira sonhos,
Venha Morfeu, que as almas envolvendo,

Faça a felicidade ao mundo vir
Num nada onde sentimo-nos risonhos
Só de sentirmos nada já sentir.

VI

O sono – Oh, ilusão! – o sono? Quem
Logrará esse vácuo ao qual aspira
A alma que de aspirar em vão delira
E já nem força para querer tem?

Que sono apetecemos? O d’alguém
Adormecido na feliz mentira
Da sonolência vaga que nos tira
Todo o sentir na qual a dor nos vem?

Ilusão tudo! Querer um sono eterno,
Um descanso, uma paz, não é senão
O último anseio desesperado e vão.

Perdido, resta o derradeiro inferno
Do tédio intérmino, esse de já não
Nem aspirar a ter aspiração.

27.02.1909