quarta-feira, 18 de novembro de 2009

História do Corpo

È possível realizar uma história do corpo?

A realização de uma historia do corpo revela-se um trabalho árduo, devido a variedade de caminhos que ela pode tomar, as diferentes formas que o objeto de estudo - o corpo - pode assumir.

O corpo é biocultural, pois ao mesmo tempo em que traz consigo elementos naturais, também nos revela traços da cultura do homem. Misterioso, o corpo nos convida a conhecê-lo em muitas de suas formas, práticas e contextos. Ele possui historicidade e por isso está em constante mudança. Desejável ou não, essa permanência da mudança faz com que as pessoas mudem também as formas de verem seus corpos, tornando-os familiares ou abstratos.

Em diferentes culturas, percebemos que nas diversas áreas do conhecimento, o corpo é diminuído em importância, aparentemente, o que acaba por nos revelar a vontade que se tem de controlá-lo. Isso faz com que a pesquisa que se queira fazer sobre ele, independente da via escolhida, termine por nos revelar as formas e aparências historicamente construídas, as certezas e incertezas, as surpresas e descobertas que se fizeram do corpo, no passado e no presente.

Talvez, invés de uma historia do corpo, possam ser realizadas pesquisas acerca das diferentes formas de controlá-lo, pessoal ou coletivamente, que nos revelariam como mudaram, durante o tempo, as formas de pesquisar e tratar doenças, alimentar e exercitar o corpo, dentre outros meios de controle.

No passado, muitas culturas buscavam o conhecimento e o cuidado com o corpo na natureza, pois acreditava-se que o corpo tivesse, dentro de si, a cura para qualquer mal e, que o contato com a natureza ativaria essa função. O corpo deveria estar em harmonia com a natureza, o clima e as estações do ano. Por isso, a medicina tinha de abranger outras áreas como, por exemplo, a astrologia.

Para Hipócrates, o diagnóstico de uma doença tinha relação direta com a natureza e, sendo assim, o paciente deveria informar ao médico seus hábitos, como a alimentação e a qualidade do sono e de suas atividades cotidianas. Para ele, o corpo não era uma entidade autônoma, mas sim, um microcosmos no seio de um macrocosmos, chegando-se até a acreditar que o corpo fosse constituído pelos quatro elementos da natureza. Entretanto, ele não considerava essa relação um fenômeno sobrenatural, e com ele a medicina se separou da magia. O que não significa que seus contemporâneos tenham feito o mesmo.

O uso da magia era feito para alcançar a cura. Templos foram erguidos aos deuses da saúde e da vida, que recebiam inúmeras oferendas de pessoas de todas as partes. Os religiosos eram responsáveis pela comunicação entre eles. Começam então a surgir os médicos sacerdotes, conservando a antiga crença na relação entre terapia e religião. Os santuários eram preparados para receber os hospedes que iam em busca da cura. Sempre localizados próximos de uma fonte de água, eles possuíam albergues e estabelecimento para banho. Era a justiça divina sobre a justiça dos homens.

Justiça essa que, mesmo tendo-a criticado, Platão não escapa da analogia entre corpo e cosmos. Para ele, a natureza era hierárquica, correspondendo, na ordem de importância, aos deuses, os homens e, por fim, às mulheres e animais.

Platão traz também em suas teorias a existência de três almas, detre as quais, apenas a que usufrui da inteligencia é imortal. O corpo permanece como sendo formado pelos quatro elementos. E quanto às duas outras almas, uma alojada no coração e outra no ventre, estas não possuem o movimento circular e perfeito do astros, mas, seis movimentos imperfeitos. Por isso, para Platão, a doença não derivava do desequilíbrio entre os quatro elementos, e sim ao desequilíbrio entre o corpo e a alma imortal.

Na concepção aristotélica, a doença é considerada como um acidente no caminho do desenvolvimento da vida adulta. Assim sendo, o doente terá de desenvolver-se para alcançar o que os demais terão por naturalidade, a vida adulta.

Quanto a alma, Aristóteles considera que o corpo, não só é constituído por ela, como é também por ela animado.

O fogo constitui a relação entre corpo e natureza, pois, segundo Aristóteles, o calor era responsável por manter a vida, ao contrario do frio. No entanto, não devemos subtrair a importância da alma como fonte de vida. Assim, o calor serve para transformar o alimento e o sangue, tendo em vista que a nutrição é feita pela alma. Nesse contexto, a função da respiração é a de resfriar para regular esse processo.

Já, para Galeno, as partes do corpo funcionam de maneira independente, mas, no entanto, há uma harmonia entre elas, graças ao Criador. O homem passa a ser então uma máquina criada pela providencia divina, que, assim como a natureza, possui uma especie de alma.

As ideias de Galeno foram assimiladas pelo cristianismo durante a Idade Média. mas, ao contrario das teorias anteriores, o homem deve se tornar cada vez mais independente da natureza, enquanto caminha em direção a Deus. Desta forma, torna-se inconcebível pensar na reincarnação como um ciclo natural, pois o homem agora é munido de uma alma eterna que se encaminha à verdade de Deus. E o corpo, por sua vez, a medida em que dificulta essa visão, passa a ser execrado, considerado um obstaculo. O corpo se opõe à alma. Ele padece, pois está submetido ao ciclo natural, às flutuações do desejo e aos perigos da corrupção.

Mas essa ruptura com a antiguidade constitui apenas uma das rupturas e continuidades que determinam os modelos corporais, seus valores e utilizações. Assim, a concepção de que humor e saude estão relacionados permanece durante seculos, principalmente nas práticas médicas.

A ideia das culturas antigas de que a mulher é um ser passivo, sem honra, e que, portanto, deveria estar sobre o domínio de um homem, de certa forma preparou o terreno para as ideias de corpo da Idade Média. Foucault, em sua analogia do corpo como objeto do poder, argumenta que um jovem grego, futuro cidadão livre, em sua relação de amor, realizada entre os homens, não poderia assumir uma posição passiva. Ele sublinha também que o código de comportamento sexual, baseado na monogamia, na fidelidade e procriação, não é uma invenção do cristianismo, e sim da degradação das cidades-estado gregas, do desenvolvimento da burocracia imperial e da influência crescente da classe média provinciana.

Aos poucos, sobretudo a partir do seculo XII, a sexualidade toma o lugar principal das preocupações com o corpo, antes direcionadas à alimentação. A sexualidade passa a assumir um caráter pecaminoso, cada vez mais problemático, que exigia o controle do corpo, do espirito e da mente., que por conseguinte, irá exigir, mais do que nunca, o conhecimento e o controle dos prazeres sexuais. A perspectiva de “fim do mundo”, colocada pelo cristianismo, deu um novo sentido à castidade, a limitação da vida sexual, ao quadro conjugal, e às demais heranças romanas.

A mulher, nesse contexto, era ainda mais estigmatizada, questão notada por Le Goff.; a menstruação era cercada de tabus, inclusive o que dizia que os leprosos haviam recebido essa punição por terem sido concebidos durante o período menstrual. Outras doenças também são atribuídas à má conduta do corpo, e seu tratamento era muito questionada, já que não cabia ao homem interferir em questões divinas.

A partir do seculo XX, os indivíduos tentam libertar seus corpos dos antigos vínculos, mesmo sendo um processo lento. Nos últimos cinquenta anos, a ideia de tornar cada corpo independente do patrimônio cultural e genético tem crescido a olhos vistos. O uso da tecnologia – próteses, cosméticos, cirurgias, ginasticas, regimes – para alcançar um corpo saudável e jovem, foi almejado pro muitas civilizações, em diferentes épocas, mas é na atualidade que ele se populariza, destacando-se na mídia e formando parte do cotidiano, estando mais na moda do que nunca, enquanto os limites de verdadeiro e falso, certo e errado, natural e artificial, são completamente relativizados. Há muitas formas de se explicar isso, e em cada uma delas vemos revelada a ambição de conhecer e controlar o corpo. Da mesma forma, vemos os limites e fragilidades características da ciência e da técnica contemporânea.

Uma dessas formas trata o corpo como o ultimo território a ser explorado, as ultimas fronteiras a serem dominadas.

Apesar da mistura entre genética e informática ter melhorado a qualidade de vida, ela também deu abertura a tendencias ligadas a um neo-eugenismo (higiene do gene humano) e a um comercio de partículas do corpo – humano, animal ou vegetal - com fins de produzir seres transgênicos, preservando cada vez menos o corpo dos interesses e ações comerciais.

Há também a concepção de corpo como uma posse, um território do exercício da liberdade individual, escolhido como lugar de explorações e experiências, o único em que se pode exercer a transformação. Controlar o corpo e ostentar esse controle para si e para os outros, em uma cultura que valoriza o que se tem e o que se pode acessar, representa um tesouro invejável. Talvez a maneira de afirmar esse domínio total, seja exibir uma aparência que esteja exatamente como se deseja a cada momento, tornando uma fonte de descontrole e sofrimento qualquer distancia entre o que foi idealizado e o que se tem.

Numa terceira visão, agrega-se a isso a ideia de que o corpo representa a identidade de um ser, que, sobretudo através da aparência física, destaca sua subjetividade. Então, torna-se difícil resistir ao uso da tecnologia – cosmética e cirurgia plastica – para esconder a origem social ou a idade, que adquire uma posição cada vez mais importante no mundo. O corpo substitui a alma da antiga concepção, deixando de ser sua sede para concretizar-se como sua experiencia mais real e autentica.

Existe ainda a contramoda, o uso do corpo como forma de protesto, prática que vem ganhando terreno desde os anos 60. Através das metamorfoses, contesta-se a homogeneização da aparência, a eterna juventude e a exploração comercial dos organismos. Acrescenta-se, aqui, o corpo como objeto de expressão do artista para denunciar coações sociais, sexuais, identitárias, e qualquer outra coisa que se queira exprimir através dele.

Nas experiências contemporâneas, a beleza é retirada da proximidade com o monstruoso. No entanto, há uma diferença fundamental entre duas épocas: enquanto nos anos 60 e 70 o corpo assume uma posição de refugio da autenticidade e da verdade, nas décadas de 80 e 90, a intenção é mostrar que o corpo pode ser reconfigurado, pois já é um ser abstrato, adaptando-o ao uso das novas tecnologias e o colocando-o em sintonia com elas, assim como como ele era colocado em sintonia com o cosmos na antiguidades. Isso parece não escapar ao totalitarismo fotogênico. Dessa forma, tudo é transformado em imagem, perpetrando-se no tempo e tornando-se sempre acessível.

A partir dessas visões, as opiniões divergem; para uns, baseados em ideologias, vanguardas e partidos políticos, afirma-se que invés de libertar os corpos, libertam-se deles, como se não fossem mais suficientes, justamente quando estão livres da alma e do moralismo do passado, tornando-os obsoletos em relação à evolução das maquinas e do pensamento. Outros se preocupam com a possibilidade de não se saber mais o que é artificial ou natural, com corpos que nem sempre mostram novas possibilidades de vida.

A expansão do conceito de top-modelização, que traz os corpos a mostra, libertos de antigos pudores, mostra-se afinada com concepções ecológicas e morais, exibindo próteses e silicones. Vemos então que, não apenas a técnica pode auxiliar o corpo, mas também, que o orgânico pode ser usado pela tecnologia.

Surge, então, o medo da impossibilidade de fazer do corpo uma mensagem a ser transmutada, cada vez a mais pessoas. Por outro lado, constata-se que sua supervalorização, acaba por fazer com que ele seja progressivamente explorado e atacado.

Sant'Anna, Denise Bernuzzii, “ É possível realizar uma história do corpo?” in Corpo e história. Campinas, SP: Autores Associados, 2001.