quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A Manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação

Resenha do livro: A Manipulação da História no Ensino e nos Meios de Comunicação

A História nos coloca em contato com o passado que não vivemos, sociedades que já não existem mais e culturas que não conhecemos. Desta forma, o modo como iremos conhecê-la, sobretudo na infância, servirá como base para formar nossas ideias, conceitos e opiniões sobre um período, um povo ou um acontecimento. Sendo assim, devemos considerar que a forma como uma história é contada, também é uma forma de poder, e detendo-se o poder de se controlar o passado, se tem o poder de explicar o presente e determinar o futuro.

A televisão, as histórias em quadrinhos, os filmes e principalmente os livros didático, serão responsáveis por transmitir a História às pessoas. O importante a se considerar sobre isso é que esse material foi produzido por alguém, Estado, instituições religiosas ou privadas, partidos políticos, e que, portanto, reflete sua subjetividade. A História contada é organizada de forma a corresponder às necessidades e interesses de quem as escreveu.

Neste livro, Marc Ferro tem como objetivo mostrar que a História reflete mais os problemas do presente, do que os do período estudado. Para isso, a cada capitulo ele percorre a História em diferentes países mostrando que, mesmo assumindo perspectivas e formas diferentes, ela sempre assume uma função política.

Entretanto, é de fundamental importância considerar que os documentos referidos pelo autor correspondem ao que foi produzido até o período presente a elaboração do livro.

A História “branca”, das relações entre os europeus e o resto do mundo, que se apresenta com mais ou menos os mesmos princípios nos países da Europa, tem sido cada vez mais contestada pelos povos conquistados e colonizados. No entanto, o primeiro capitulo do livro trata de uma História branca contada e ensinada na África do Sul.

A História africânder traz a religião como parte fundamental. A partir disso, sua trajetória passa a ser uma peregrinação, da chegada dos colonos e da Grande Migração. Nessa História, a África do sul aparece como a terra da tolerância religiosa e do acolhimento, mas também do sofrimento causado pela chegada dos ingleses e portugueses. Ela ressalta a superioridade branca, além de afirmar que a chegada de bôeres e bantos se deu de forma simultânea, o que coloca os africânders como salvadores dos negros. Tudo isso serviria para justificar o Apartheid.

A História da África Negra, por sua vez, retratada no segundo capítulo, apresenta-se estratificada em três níveis: o mais forte, da tradição oral, a História ensinada pelo colonizador e a História descolonizada. Essa História se mistura ao mito, trazendo os grandes heróis como símbolos da negritude.

Para o povo anhi da Costa do Marfim, a História não constitui um campo do saber, ela é para poucos, relembrada apenas em cerimonias e usada para dar bons exemplos, já que nela os personagens não possuem fraquezas e as guerras nunca são perdidas. Ela vai da habitação da região à colonização. Já, para os senegaleses, a História, antes feita pelos colonos, com poucas menções à África, que seguia o que se era ensinado na França, valorizando a origem gaulesa, tentando transformar os africanos em “franceses”, após a independência, passa a valorizar o passado e a cultura africana, trazendo a África como o berço da humanidade, fechando-se aos estrangeiros, afim de protegê-la. Nessa Nova História Africana, a ação islâmica é quase esquecida, deixando as desgraças da África apenas nas mãos da Europa.

Muito interessante é a História contada em Trinidad. A mistura de descendentes de escravos indianos, africanos e chineses, traz para a disciplina a função de propagar igualdade. O passado desses povos é contado de forma a mostrar como sempre foram pacíficos, criativos e civilizados. Quanto a escravidão, traça-se uma cronologia da escravização de pessoas, entretanto, não se fala do trafico de negros, deixando-se de mencionar que os negros da América foram trazidos da África como escravos. A escravidão é tratada de tal forma, que a imagem que as crianças de Trinidad tem de escravo corresponde a duas lindas crianças inglesas sendo postas a venda.

O quarto capítulo traz a História contada na Índia. Em um país onde muitos povos diferentes convivem, um método adotado foi comparar a Índia ao arco-íris. Para as crianças, não se fala do sistema de classe, a não ser para deplorá-lo, nem dos ritos hindus, tratando-o como um fenômeno social autônomo, totalmente desvincilhado da religião. Não se fala também da versão muçulmana de sua independência. Nota-se constantemente a necessidade de se manter a Índia unificada.

No capitulo cinco, a História árabe passa a ter importância a partir do choque com a Europa industrial e colonial. Nisso, a própria religião ajuda, e muito, já que está entre os deveres do crente conhecer os feitos e ações históricas dos profetas. A doutrina diz que a comunidade muçulmana tem a função de completar a missão do profeta. Como afirma o autor “Assim, a História é a realização dessa missão, é o plano de Deus para salvar a humanidade” (p 76). A necessidade de pecar conduz os homens a cometerem os mesmos erros, a História vem para mostrar alguns que recusaram-se a isso, já que os muçulmanos são os únicos possuidores de uma visão autentica da existência, graças a revelação de Maomé. Dessa forma, só é considerado História o que contribui para a existência do islã.

Com base nas tribos da Península Arábica, essa História não tem uma cronologia, ela é uma seleção de fatos e acontecimentos. É a História da comunidade islâmica cercada por bárbaros, que se reanima quando os países islâmicos retomam sua identidade e liberdade, dando sentido a cada problema, situando-os tributários da História ocidental.

A religião, primeira coisa a ser ensinada às crianças, toma 1/3 do tempo destinado ao ensino. A geografia contribuiu muito com isso, já que os países ábares aparecem como o centro do mundo. Percebemos também, a visão que o árabe tinha dos países vizinhos. A necessidade de se arabizar a História do Islã se manifesta publicamente quando na V Conferência Cultural Árabe foi decidido que os manuais de História seriam unificados afim de acentuar o papel dos árabes no desenvolvimento da humanidade e na luta contra o Imperialismo. No entanto, percorrendo o ensino de História nesses países, podemos notar que isso não se realiza da forma proposta. Comparando a História ensinada no Iraque à ensinado no Egito, o autor demarca algumas diferenças: no Iraque, os árabes aparecem como um povo livre, civilizado, organizado e bem estabelecido - o berço da humanidade -. Já, para os egípcios, são considerados um povo atrasado, visto até com certa pena.

Enquanto nos países sunitas as batalhas que definiriam o califa que sucederia Moawiya não aparecem nos livros didáticos, nos países xiitas é dado um lugar de destaque ao assassino e mártir Hussayn. Na História iraquiana, a relação com os árabes ocupa mais espaço do que o dedicado aos califas persas. Mas não se menciona a ação egípcia na tentativa de dominação do Iraque.

A presença dos árabes, de Chipre à Andaluzia, mostram novos povos aos europeus, que só tinham acesso a eles através das rotas árabes. Estes, ao deixarem a região, deixaram também suas práticas e técnicas aos portugueses e espanhóis, o que permitiu que se realizassem os grandes descobrimentos. A partir daí, nasce o imperialismo, motivo de sofrimento para a nação árabe até hoje.

A História é contada como se antes do imperialismo os árabes não tivessem sido dominados, esquecendo os turcos e mongóis, inclusive, ao se falar das Cruzadas, como se eles a tivessem vencido. Quanto a isso, Marc Ferro diz ser uma informação clara: os árabes venceram as Cruzadas, assim como vencerão o imperialismo.

A História ensinada na Argélia aparece inversa a europeia. Desde o inicio, é dada grande importância a existência milenar de três tribos africanas, sendo dedicados apenas dois capítulos à dominação francesa: o da conquista e o da retomada da liberdade. Mesmo assim, muito pouco se fala, como se 1 milhão de franceses não tivessem vivido entre eles.

Esta mesma negação, tal como apresentada no sexto capitulo, também é vista no Irã em relação aos árabes, considerando a dominação como o fim de sua prosperidade. Segundo a citação de Ferro “A glória do Irã vem antes da glória do Islã.” (p 105).

Há uma ridicularização do sunismo e dos árabes, usando referencias ao Iraque, não sendo mencionado nada a respeito do período de dominação. Neste caso, não se trata de uma questão religiosa, mas sim, nacionalista.

Na História turca, há uma distanciação ainda maior do que fora proposto na Conferencia, dando como origem da nação, não o Islã, mas uma raiz dupla, valorizando os hunos e os povos nômades.

No sétimo capítulo, temos a História vista da Europa, onde ela assume outras formas de valorizar o Estado Nação, como as festa na Espanha e o teatro na Inglaterra.

As festas espanholas são a memória transfigurada e espontânea que representam a História do país. Entretanto, a História aprendida pelas crianças não fala sobre o que foi feito com os idios, muito menos se fala da independência dos países da América.

Na Alemanha, a História exalta a origem da Nação e seus grandes heróis. A Revolução Francesa aparece de relance, já que a revolução acontecera muito antes, com Lutero. Pouco, ou quase nada, se fala sobre o país depois da II Guerra Mundial, mostrando que o povo alemão sempre foi perseguido, prendendo-se muito ao cinema nazista.

O clima de guerra civil invade a História na França, que diverge entre várias versões que disputam a posição de verdadeira. Os meios de comunicação apresentam uma História que não é problemática e, sem problemas, o professor perde sua posição, tornando-se um auxiliar do que é produzido por eles. Os livros didático trazem uma linguagem difícil, estatísticas e documentos, condenando as ilustrações e narrativas.

Na História da URSS, trazida por Marc Ferro no oitavo capítulo, o Partido não só se encarrega do Estado, como também da História. A História deve ser vigiada, estando sempre em conformidade com o Partido para não deslegitimá-lo. Fica a cargo do historiador do Partido, portanto, engrandecer as estruturas existentes.

Nos manuais, a verdade é muitas vezes destorcida, sobretudo quando se fala de Trotski, somente mencionado-o quando sua ação colabora com o Partido ou com Lenin. Após kruchev, Stalin também desaparece dos livros didático. Como diz Marc Ferro, há uma”lenificação suplementar da História” (p 145), com função de estimular o patriotismo. A História do mundo aparece de forma bem ampla, mas é colocada para comprovar os diferentes estágios pelos quais passará uma sociedade, segundo Marx.

Na História armênia do nono capítulo se mistura à lenda, orgulhando-se de ser a primeira nação cristã, fato conhecido de todas as crianças. A questão da evolução da sociedade também se faz presente na Armênia soviética, mas pouco se fala sobre religião, parte fundamental dessa História, exceto quando o tema é usado para falar de dominação. Mostra-se também uma vergonha em relação ao dinheiro e ao comercio.

No capítulo dez, sobre a Polônia, a História para depois de 1945, refugiando-se no cinema. Sua função é despertar a admiração dos alunos pelos grandes heróis da História, privilegiando os movimentos revolucionários. Ela deve envolver emocionalmente os alunos para que eles sintam os motivos que impeliram esses heróis, além de desenvolver o sentimento patriótico. A História mostra às crianças que os alemães sempre tiveram vontade de destruir a Polônia. Por outro lado, os conflitos com os russos não aparecem, ficando apenas uma relação de amizade: no caso de 1919-20, a responsabilidade pelos acontecimentos recai sobre os estrangeiros, culpados por manipular a Polônia para investir contra a URSS. A religião também não aparece na História polonesa, na qual os ricos e nobres aparecem sempre como traidores da pátria.

O capítulo onze fala da China, onde a História tem a função de fortalecer o proletariado, mostrando que o povo é seu motor, e que o marxismo é a única forma de entendê-la. Ela também tem a intenção de mostrar a superioridade do socialismo sobre um capitalismo decadente. É preciso que as crianças sintam o que seus pais sofreram através das descrições do professor. Ele deve também passar quatro virtudes fundamentais aos alunos: o patriotismo e valorização das coisa genuinamente chinesas, mostrar que o internacionalismo consiste em um interesse entre os povos, apontando as nações oprimidas, a moral socialista da classe trabalhadora e mostrar o ensino pelo trabalho através dos tempos, valorizando o trabalho manual. Coloca-se a analise da História na dependência da ideologia. No entanto, há uma dificuldade de se conciliar o passado da China com o modelo marxista, fazendo com que isso se torne mais praticável no presente.

Ferro mostra que também há diferenças entre as Histórias ensinadas em Pequim e Xangai. Em Formosa, a primeira coisa aprendida pelas crianças é ter orgulho do passado da China. Curioso é ver que só por volta dos doze anos é que eles tomam conhecimento de que o país permanece dividido desde 1945. Eles também aprendem que os jovens devem defender a pátria da mesma forma que fariam por suas mães, sendo-lhes mostrado claramente a necessidade de se reconquistar a China continental, estimulando inclusive o ódio aos comunistas através de Histórias trágicas.

Já, em Pequim, na China Popular, os livros são ainda mais politizados, trazendo para a sala de aula elementos do presente para que as crianças se identifiquem. Ela mostra a crueldade do período de exploração capitalista, valorizando os que possibilitaram o surgimento de uma nova sociedade. A questão do surgimento ou não de um capitalismo sem a ação estrangeira, também constitui um problema para essa História, que julga que por culpa da Europa permaneceu na fase do feudalismo até o seculo XIX. Essa História desperta criticas pelo fato de não possuir um livro de História geral da China.

O problema quanto ao feudalismo, seu inicio e tempo de duração, permanece, tentando estabelecer se houve ou não evolução entre as guerras.

Quanto a essa História, o autor finaliza o capitulo com a seguinte citação “Tal representação do passado só vale a título precário, pois o pensamento de Mao Tsé-Tung e sua visão da História continuam legítimos e a sustentam. Quando seus erros forem condenados e elaborarem outra História, surgirá necessariamente uma dificuldade: conciliar a visão determinista da História, destinada a legitimar o poder dos dirigentes, com o exercício desse poder que, ao fazer um apelo permanente ao voluntarismo, choca-se com a resistência das sociedades” (p 234).

No capítulo doze, acompanhamos a mudanças pelas quais passou o ensino da História no Japão. A principio, ele trazia o imperador como descendente dos Deuses, sendo, portanto, passado às crianças que ele devia ser visto como um pai, exaltando sempre sua bondade e competência. A função dessa História não era a de reportar a verdade dos acontecimentos, mas forjar um patriotismo e identificar a população com a politica do imperador. A História é então associada à geografia, à moral e ao estudo de línguas, recebendo o nome de Kokuta, que segundo o que era ensinado, era responsável pela estabilidade do império japonês, coisa que, por não possuírem, os estrangeiros sofriam.

No inicio do seculo XX, algumas coisas são agregadas a essa História, como a valorização do individualismo, garantindo que o sucesso de cada um representaria a prosperidade da Nação, passando com isso a mensagem de que o passado não deveria mais servir de modelo, já que o período dos samurais fora repleto de desigualdades, injustiças e brutalidades. Também aparece uma valorização das ideias ocidentais, condenando a Ásia ao atraso, colocando apenas o Japão em posição de país moderno, baseando-se na Inglaterra. Da glorificação do imperador, passa-se à glorificação do Estado.

Durante a Segunda Guerra Mundial, essa História sofre grandes mudanças: o estrangeiro deixa de ser um exemplo para se tornar uma ameaça, a Ásia passa a ser valorizada, considerando-se que os países devem se dar as mãos por serem parecidos, como no caso da china, o darwinismo se faz notoriamente presente nos livros didático. Contudo, após 1945, com a intervenção norte-americana, os livros abandonam o patriotismo, passando a exaltar a democracia e o parlamentarismo. A origem divina do homem é substituída pelo homem pré-histórico. Entretanto, essas História continuam habitando a memória popular, mantidas pelo teatro no, os contos, as práticas e tradições xintoístas e o cinema.

Por volta dos anos sessenta, as ideias de uma democracia socialista e o marxismo passam a figurar, trazendo, assim como na China, as revoltas camponesas. Mas a participação do japão na II Guerra segue a História na Alemanha, quase não tocando no assunto.

No capitulo treze, o mito da construção do paraíso com iniciativa e o suor do rosto, da inicio a História do país. Com a I Guerra, vê-se a necessidade de escamotear os conflitos religiosos e de nacionalidade, colocando em seu lugar a ideologia do Nelting-Pot, que colocava a todos como membros de uma mesma Nação. A partir disso, passa-se a valorizar tudo o que identifique os americanos como tais. Todos os problemas do passado são colocados como um difícil caminho pelo qual a sociedade passou para chegar ao estágio em que se encontrava, previsto pelos Pais Fundadores, fazendo dessa “uma História sem histórias” (p 262).

O cinema passa então a reforçar, de forma simples e acessível, essa História, onde ela assume a forma de um romance moralista e despolitizado, que valoriza a liberdade do Novo Mundo.

Nos Estados Unidos, a História assume algumas formas interessantes como poucas no mundo: o culto à lugares sagrados constitui uma prática comum entre os americanos, outra curiosidade são os chamados museus vivos que são pessoas mais velhas passando às novas gerações como aconteciam as coisas no seu tempo.

Nos anos sessenta, a luta dos negros por uma maior participação dos negros na História trouxe mudanças para os livros didático, que passaram a trazer histórias negras da Nação. A iniciativa dos negros levou outras minorias a lutar por uma maior expressão na História norte-americana, isso possibilitou uma grande variedade de versões dela.

Salvo os casos de alguns livros didático, de uma forma predominante, a História permanece desproblematizada, centrada, como em muitas outras áreas, no que aconteceu dentro do país, dando pouca ou quase nenhuma atenção à História estrangeira.

No ultimo capítulo, Marc Ferro traz as contra-Histórias dos mexicanos, chicanos e aborígenes australianos.

Muitas dessas contra-Histórias tentam a institucionalização. No México, a contra-História se fez História, agora descolonizada. Para os chicanos dos Estados Unidos, isso demorou um pouco mais, mas, graças ao Movimento Chicano, mudou sua cronologia, começando com a chegada dos espanhóis, não com a dos Pais Fundadores, dentre outras mudanças.

No caso aborígene, essa História se mantem na tradição oral, sendo transcrita pelas crianças, misturando História e lenda. Para exemplificar, como não há livros didático, o autor se utiliza de textos produzidos por essas crianças, que contam o passado descrito por seus pais.

É evidente a importância do livro didático no processo do ensino de História, todavia, o autor mostra que existem outros meios de fazê-lo, como a televisão na França, o cinema na Alemanha, Estados Unidos e Polônia, as festas espanholas e a tradição oral na África e Austrália.

Interessante é ver algumas semelhanças entre as formas de se construir a História Nacional, como no caso dos países comunistas, mesmo que em cada um desses lugares ela atenda a objetivos próprios e diferentes.

O livro de Marc Ferro constitui-se uma bibliografia indispensável, não apenas para a prática docente, mas também, uma rica contribuição à pesquisa. Ele traz elementos interessantes pelos quais podemos avaliar como a História se realiza, de uma forma ou de outra, em cada lugar.

FERRO, Marc. A manipulação da História no ensino e nos meios de comunicação. São Paulo: IBRASA, 1983.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

História do Corpo

È possível realizar uma história do corpo?

A realização de uma historia do corpo revela-se um trabalho árduo, devido a variedade de caminhos que ela pode tomar, as diferentes formas que o objeto de estudo - o corpo - pode assumir.

O corpo é biocultural, pois ao mesmo tempo em que traz consigo elementos naturais, também nos revela traços da cultura do homem. Misterioso, o corpo nos convida a conhecê-lo em muitas de suas formas, práticas e contextos. Ele possui historicidade e por isso está em constante mudança. Desejável ou não, essa permanência da mudança faz com que as pessoas mudem também as formas de verem seus corpos, tornando-os familiares ou abstratos.

Em diferentes culturas, percebemos que nas diversas áreas do conhecimento, o corpo é diminuído em importância, aparentemente, o que acaba por nos revelar a vontade que se tem de controlá-lo. Isso faz com que a pesquisa que se queira fazer sobre ele, independente da via escolhida, termine por nos revelar as formas e aparências historicamente construídas, as certezas e incertezas, as surpresas e descobertas que se fizeram do corpo, no passado e no presente.

Talvez, invés de uma historia do corpo, possam ser realizadas pesquisas acerca das diferentes formas de controlá-lo, pessoal ou coletivamente, que nos revelariam como mudaram, durante o tempo, as formas de pesquisar e tratar doenças, alimentar e exercitar o corpo, dentre outros meios de controle.

No passado, muitas culturas buscavam o conhecimento e o cuidado com o corpo na natureza, pois acreditava-se que o corpo tivesse, dentro de si, a cura para qualquer mal e, que o contato com a natureza ativaria essa função. O corpo deveria estar em harmonia com a natureza, o clima e as estações do ano. Por isso, a medicina tinha de abranger outras áreas como, por exemplo, a astrologia.

Para Hipócrates, o diagnóstico de uma doença tinha relação direta com a natureza e, sendo assim, o paciente deveria informar ao médico seus hábitos, como a alimentação e a qualidade do sono e de suas atividades cotidianas. Para ele, o corpo não era uma entidade autônoma, mas sim, um microcosmos no seio de um macrocosmos, chegando-se até a acreditar que o corpo fosse constituído pelos quatro elementos da natureza. Entretanto, ele não considerava essa relação um fenômeno sobrenatural, e com ele a medicina se separou da magia. O que não significa que seus contemporâneos tenham feito o mesmo.

O uso da magia era feito para alcançar a cura. Templos foram erguidos aos deuses da saúde e da vida, que recebiam inúmeras oferendas de pessoas de todas as partes. Os religiosos eram responsáveis pela comunicação entre eles. Começam então a surgir os médicos sacerdotes, conservando a antiga crença na relação entre terapia e religião. Os santuários eram preparados para receber os hospedes que iam em busca da cura. Sempre localizados próximos de uma fonte de água, eles possuíam albergues e estabelecimento para banho. Era a justiça divina sobre a justiça dos homens.

Justiça essa que, mesmo tendo-a criticado, Platão não escapa da analogia entre corpo e cosmos. Para ele, a natureza era hierárquica, correspondendo, na ordem de importância, aos deuses, os homens e, por fim, às mulheres e animais.

Platão traz também em suas teorias a existência de três almas, detre as quais, apenas a que usufrui da inteligencia é imortal. O corpo permanece como sendo formado pelos quatro elementos. E quanto às duas outras almas, uma alojada no coração e outra no ventre, estas não possuem o movimento circular e perfeito do astros, mas, seis movimentos imperfeitos. Por isso, para Platão, a doença não derivava do desequilíbrio entre os quatro elementos, e sim ao desequilíbrio entre o corpo e a alma imortal.

Na concepção aristotélica, a doença é considerada como um acidente no caminho do desenvolvimento da vida adulta. Assim sendo, o doente terá de desenvolver-se para alcançar o que os demais terão por naturalidade, a vida adulta.

Quanto a alma, Aristóteles considera que o corpo, não só é constituído por ela, como é também por ela animado.

O fogo constitui a relação entre corpo e natureza, pois, segundo Aristóteles, o calor era responsável por manter a vida, ao contrario do frio. No entanto, não devemos subtrair a importância da alma como fonte de vida. Assim, o calor serve para transformar o alimento e o sangue, tendo em vista que a nutrição é feita pela alma. Nesse contexto, a função da respiração é a de resfriar para regular esse processo.

Já, para Galeno, as partes do corpo funcionam de maneira independente, mas, no entanto, há uma harmonia entre elas, graças ao Criador. O homem passa a ser então uma máquina criada pela providencia divina, que, assim como a natureza, possui uma especie de alma.

As ideias de Galeno foram assimiladas pelo cristianismo durante a Idade Média. mas, ao contrario das teorias anteriores, o homem deve se tornar cada vez mais independente da natureza, enquanto caminha em direção a Deus. Desta forma, torna-se inconcebível pensar na reincarnação como um ciclo natural, pois o homem agora é munido de uma alma eterna que se encaminha à verdade de Deus. E o corpo, por sua vez, a medida em que dificulta essa visão, passa a ser execrado, considerado um obstaculo. O corpo se opõe à alma. Ele padece, pois está submetido ao ciclo natural, às flutuações do desejo e aos perigos da corrupção.

Mas essa ruptura com a antiguidade constitui apenas uma das rupturas e continuidades que determinam os modelos corporais, seus valores e utilizações. Assim, a concepção de que humor e saude estão relacionados permanece durante seculos, principalmente nas práticas médicas.

A ideia das culturas antigas de que a mulher é um ser passivo, sem honra, e que, portanto, deveria estar sobre o domínio de um homem, de certa forma preparou o terreno para as ideias de corpo da Idade Média. Foucault, em sua analogia do corpo como objeto do poder, argumenta que um jovem grego, futuro cidadão livre, em sua relação de amor, realizada entre os homens, não poderia assumir uma posição passiva. Ele sublinha também que o código de comportamento sexual, baseado na monogamia, na fidelidade e procriação, não é uma invenção do cristianismo, e sim da degradação das cidades-estado gregas, do desenvolvimento da burocracia imperial e da influência crescente da classe média provinciana.

Aos poucos, sobretudo a partir do seculo XII, a sexualidade toma o lugar principal das preocupações com o corpo, antes direcionadas à alimentação. A sexualidade passa a assumir um caráter pecaminoso, cada vez mais problemático, que exigia o controle do corpo, do espirito e da mente., que por conseguinte, irá exigir, mais do que nunca, o conhecimento e o controle dos prazeres sexuais. A perspectiva de “fim do mundo”, colocada pelo cristianismo, deu um novo sentido à castidade, a limitação da vida sexual, ao quadro conjugal, e às demais heranças romanas.

A mulher, nesse contexto, era ainda mais estigmatizada, questão notada por Le Goff.; a menstruação era cercada de tabus, inclusive o que dizia que os leprosos haviam recebido essa punição por terem sido concebidos durante o período menstrual. Outras doenças também são atribuídas à má conduta do corpo, e seu tratamento era muito questionada, já que não cabia ao homem interferir em questões divinas.

A partir do seculo XX, os indivíduos tentam libertar seus corpos dos antigos vínculos, mesmo sendo um processo lento. Nos últimos cinquenta anos, a ideia de tornar cada corpo independente do patrimônio cultural e genético tem crescido a olhos vistos. O uso da tecnologia – próteses, cosméticos, cirurgias, ginasticas, regimes – para alcançar um corpo saudável e jovem, foi almejado pro muitas civilizações, em diferentes épocas, mas é na atualidade que ele se populariza, destacando-se na mídia e formando parte do cotidiano, estando mais na moda do que nunca, enquanto os limites de verdadeiro e falso, certo e errado, natural e artificial, são completamente relativizados. Há muitas formas de se explicar isso, e em cada uma delas vemos revelada a ambição de conhecer e controlar o corpo. Da mesma forma, vemos os limites e fragilidades características da ciência e da técnica contemporânea.

Uma dessas formas trata o corpo como o ultimo território a ser explorado, as ultimas fronteiras a serem dominadas.

Apesar da mistura entre genética e informática ter melhorado a qualidade de vida, ela também deu abertura a tendencias ligadas a um neo-eugenismo (higiene do gene humano) e a um comercio de partículas do corpo – humano, animal ou vegetal - com fins de produzir seres transgênicos, preservando cada vez menos o corpo dos interesses e ações comerciais.

Há também a concepção de corpo como uma posse, um território do exercício da liberdade individual, escolhido como lugar de explorações e experiências, o único em que se pode exercer a transformação. Controlar o corpo e ostentar esse controle para si e para os outros, em uma cultura que valoriza o que se tem e o que se pode acessar, representa um tesouro invejável. Talvez a maneira de afirmar esse domínio total, seja exibir uma aparência que esteja exatamente como se deseja a cada momento, tornando uma fonte de descontrole e sofrimento qualquer distancia entre o que foi idealizado e o que se tem.

Numa terceira visão, agrega-se a isso a ideia de que o corpo representa a identidade de um ser, que, sobretudo através da aparência física, destaca sua subjetividade. Então, torna-se difícil resistir ao uso da tecnologia – cosmética e cirurgia plastica – para esconder a origem social ou a idade, que adquire uma posição cada vez mais importante no mundo. O corpo substitui a alma da antiga concepção, deixando de ser sua sede para concretizar-se como sua experiencia mais real e autentica.

Existe ainda a contramoda, o uso do corpo como forma de protesto, prática que vem ganhando terreno desde os anos 60. Através das metamorfoses, contesta-se a homogeneização da aparência, a eterna juventude e a exploração comercial dos organismos. Acrescenta-se, aqui, o corpo como objeto de expressão do artista para denunciar coações sociais, sexuais, identitárias, e qualquer outra coisa que se queira exprimir através dele.

Nas experiências contemporâneas, a beleza é retirada da proximidade com o monstruoso. No entanto, há uma diferença fundamental entre duas épocas: enquanto nos anos 60 e 70 o corpo assume uma posição de refugio da autenticidade e da verdade, nas décadas de 80 e 90, a intenção é mostrar que o corpo pode ser reconfigurado, pois já é um ser abstrato, adaptando-o ao uso das novas tecnologias e o colocando-o em sintonia com elas, assim como como ele era colocado em sintonia com o cosmos na antiguidades. Isso parece não escapar ao totalitarismo fotogênico. Dessa forma, tudo é transformado em imagem, perpetrando-se no tempo e tornando-se sempre acessível.

A partir dessas visões, as opiniões divergem; para uns, baseados em ideologias, vanguardas e partidos políticos, afirma-se que invés de libertar os corpos, libertam-se deles, como se não fossem mais suficientes, justamente quando estão livres da alma e do moralismo do passado, tornando-os obsoletos em relação à evolução das maquinas e do pensamento. Outros se preocupam com a possibilidade de não se saber mais o que é artificial ou natural, com corpos que nem sempre mostram novas possibilidades de vida.

A expansão do conceito de top-modelização, que traz os corpos a mostra, libertos de antigos pudores, mostra-se afinada com concepções ecológicas e morais, exibindo próteses e silicones. Vemos então que, não apenas a técnica pode auxiliar o corpo, mas também, que o orgânico pode ser usado pela tecnologia.

Surge, então, o medo da impossibilidade de fazer do corpo uma mensagem a ser transmutada, cada vez a mais pessoas. Por outro lado, constata-se que sua supervalorização, acaba por fazer com que ele seja progressivamente explorado e atacado.

Sant'Anna, Denise Bernuzzii, “ É possível realizar uma história do corpo?” in Corpo e história. Campinas, SP: Autores Associados, 2001.